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De onde será
Invento os sonhos que não tenho?
De palavras bem ditas e mal ditas
Ao passar da leveza e da brisa
E por elas levadas?
De olhares intrigantes e deixados
Escondidos atrás da porta
Que o vento fechou?
De gestos ímpios e invisíveis
Gravados no deserto da alma
Que as tempestades apagaram?
De onde será vêm
Os sonhos que não consigo ter?
De mim mesmo
desenganado e fragmentado
Ou de minhas imagens
refletidas nos cacos do espelho
Que se quebrou de tantos desencantos?
Oswaldo Antônio Begiato
Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
-monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré
- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.
Pablo Neruda
In Últimos Poemas

A quem como a ti amei eu, ó sombra amada!
Atraí-te a mim, para dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si:
para eles és sempre o eterno «fora-de-mim».
Ah, estes olhos põem-me fora de mim!
Friedrich Nietzsche

Quando no espelho me contemplo, a frio,
Notando o ultraje que produz a idade,
Sou como quem suporta, ao desafio,
A afronta iníqua da fatalidade.
Mas se em teus olhos, cheios de bondade,
Me revejo, ante a análise, sorrio;
Volvo ao fulgor da antiga mocidade,
Em subitâneo e alegre desvario!
Espelhado em teus olhos, estremeço!
Aos teus olhos, feliz, rejuveneço,
Revibrando de espanto e de alvoroço!
Porque sempre que os beijo e os interpelo,
Por sua refração, me torno belo,
E pelo teu amor me sinto moço!
Martins fontes
Quis Deus que a única coisa que não se possa disfarçar seja o olhar do homem.
Alexandre Dumas